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Tome assento: um pouco de crase não faz mal a ninguém.

Por: Prof.Thiago Veríssimo

Há muito, ouvimos depoimentos transbordantes de nacionalismo e amor à Língua Portuguesa em diversos cantos do Brasil e fora dele. No entanto, muitas das propostas para reforma lingüística carecem de visão especializada, visto que certos “reformadores” não são tidos como “referência no assunto”. Em tempos de “mudanças necessárias ao Português”, ouvimos propostas como a do deputado João Herrmann Neto que “pretende abolir esse acento [grave] do português do Brasil [...]”[1]. Mas, será que acabando com o acento, a crase acaba também?

Crase, em grego, significa fusão, mistura. É a mistura de duas vogais iguais. Como aponta José Augusto Carvalho, professor da Universidade Federal do Espírito Santo

Na língua falada, ocorre com freqüência a crase:
      Blusa azul – blusazul
      Belo horrível – belorrível [...]
(CARVALHO, 2007, p. 372)

 

Logo a fusão (crase) não é o acento grave(`). O acento na linguagem escrita apenas sinaliza a mistura das vogais – a preposição a + o artigo a(s) ou o demonstrativo a de àquelas, por exemplo. Segundo o professor Evanildo Bechara “A crase é um fenômeno de sintaxe. O deputado está misturando as coisas com esse projeto”[2].

A seguir, veremos os principais casos em que ocorre crase:

 

1. Diante de palavras femininas, explícitas ou subentendidas, desde que admitam artigo:

a) Ele Falou à platéia. (= para a)

b) Ele se comporta à Napoleão. (= à moda de)

 

2. “Truque do masculino”

a) Refiro-me à menina. (ao menino)

b) Fomos à loja. (ao parque)

 

3. “Truque do ‘vou a, venho da: crase há / vou a, venho de: crase pra quê?’”.

a) Vou à Bahia. (volto da Bahia)

b) Vou a Portugal. (venho de Portugal)

Obs: no entanto, Vou à Portugal dos bons vinhos. (pois volto da Portugal dos bons vinhos).

 

4. Se o a, sem s, estiver diante de um nome plural, não há o acento grave:

a) Vou a festas. (porque vou a bailes)

 

5. A crase é facultativa diante de possessivos e nomes próprios:

a) Darei a flor a (à) minha tia. (da mesma forma, darei a flor a (ao) meu tio).

b) Recorri a (à) Maria. (recorri a (ao) João).

 

6. Usa-se o acento grave em locuções femininas, seja prepositivas, seja conjuntivas, seja adverbiais:

Ex: feito à mão, tomado à força, ferido à bala, orou à distância, movida à gasolina, saiu à noite, matar à fome, feito à tinta, à medida que, à toa, à vontade, às pressas, à tarde, às escuras...

Obs: Alguns gramáticos optam por não generalizar o acento grave nas locuções femininas. Adotam-no, então, para evitar ambigüidades. Por exemplo:

 

Marcos pagou a vista (teria, por exemplo, Marcos feito uma cirurgia nos olhos? Ou pagou para avistar algo?).

Marcos pagou à vista (forma de pagamento). 

 


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